Educação Online

Educação Online

Por Pedro Demo

 

Analisa educação online como modalidade de curso que veio para ficar; cumpre praticar com qualidade, garantindo a aprendizagem dos cursistas. A distinção entre cursos presenciais e não presenciais perdeu sentido: quem estuda, pesquisa, elabora está presente, mesmo não estando na presença de um professor ou em sala de aula. É preciso, porém, melhorar muito a qualidade autoral dos cursos. 

 

  1. INTRODUÇÃO

 

A pandemia do coronavírus de 2020, entre tantos atrapalhos, também nos faz repensar a vida. Estudantes ficam em casa, por determinação sanitária, e logo surge a preocupação com “perder aula”. Na escola que temos, “perder aula” não significa grande coisa. Se apenas 9% aprenderam matemática no ensino médio em 2017 (média do país), e esta cifra foi de 11% em 1995: matemática nunca existiu e praticamente todas as aulas foram inúteis, além de serem 22 anos perdidos. Perder essas aulas não é perda nenhuma. A substituição delas por videoaulas é outro equívoco, porque estamos malbaratando o online para algo apenas reprodutivo, a reboque do que vínhamos fazendo tão mal. 

 

  1. APRENDER ONLINE

 

O que falta na escola/universidade não é aula; tem de sobra, como sobra. Faltam atividades de aprendizagem, como ler, estudar, elaborar, pesquisar, argumentar etc. que resumo na ideia de aprender como autor (Demo, 2018). O ambiente online, que é parte definitiva da aprendizagem escolar, não muda a aprendizagem em si, embora a contextualize de modo avassalador, como toda tecnologia “do espírito” faz (escrita, imprensa etc.). As ferramentas online foram criadas, sobretudo por hackers interessados em educação, para romper completamente com a escola/universidade atual, inserindo o compromisso com a autoria dos estudantes. Embora o mundo digital se preste “maravilhosamente” para plagiar tudo, em sua ambiguidade é também uma chance superlativa de autoria individual e coletiva, como é a Wikipédia: um clube de autores, com excelente “educação científica” (cuidado com o método), autoria coletiva instigante, com textos sempre abertos (open science), e qualidade aceitável. É possível aprender como autor online, tanto que no último Enade-2018, os cursos online (não presenciais) tiveram alguma vantagem. A questão maior é de fundo: ambas as modalidades não têm qualidade satisfatória mínima, porque o foco nunca foi aprendizagem, mas transmissão de conteúdo, que fica ainda mais escancarado com videoaulas. Podemos facilmente ver esta falta de qualidade no desempenho péssimo dos licenciados na escola, também os pedagogos, embora esses tenham nível bem melhor: o aprendizado de matemática nos Anos Iniciais em 2017, foi de 48%, ainda muito insatisfatório, mas o mais elevado que temos, e é obra do pedagogo; nos Anos Finais, cai para 21%, e no Ensino Médio, para 9%, obra do licenciado. Por certo, o mau aprendizado não está na conta do professor. Ele também é “vítima de aula”; o aluno pode não aprender por muitas outras razões, sem falar em condições precárias de trabalho na escola. Mas o professor, como consta da teoria estatística, está “associado” com o mau desempenho do aluno. O problema do pedagogo é alfabetização: depois de três anos, sequer metade está alfabetizada (há estados com 20% apenas). A universidade não forma autores, cientistas, pesquisadores, mas “profissionais do ensino”, não da “aprendizagem”. Vão para a escola repetir conteúdo, não por má vontade, mas por “deformação”. 

Cursos serão “híbridos”, no sentido de que misturam presença física e virtual (ambas são “presença”), com predomínio da virtual. O desafio não é de presença, mas de aprendizagem. Muita gente pode estar sentada debaixo do nariz do professor em sala de aula, e estar no mundo da lua, porquanto sala de aula está mais para o mundo da lua, do que para o mundo real. Outros podem estar longe, estudando à noite ou no fim de semana, e estar aproveitando bem a chance de aprender. 

 

  1. BOM USO (AUTORAL) DAS TECNOLOGIAS

 

Videoaula agora está na boca de todos, como possível maravilha pedagógica. Pode ser. Mas, em geral, é reprodução caduca. Primeiro, é ridículo apenas repassar conteúdo num ambiente que está abarrotado de conteúdo, para todos os gostos (internet) (Demo, 2020). Segundo, é ingênuo transferir de modo mecanicista a aula presencial para online; no mínimo, faz-se pouco caso do online e do estudante. Terceiro, se temos de mudar, vamos mudar inteligentemente, a saber, garantindo a aprendizagem autoral do estudante. Assim, ao invés de oferecer videoaula, seria bem mais interessante que ele faça seus vídeos, que podem ser, para iniciar, no celular, trabalhando textos mais modernos (multimodais) que mesclam áudio, vídeo, foto, animação, charge, desenhos, e texto, o que, ademais, leva a ensaiar uma habilidade fundamental atual que é fluência digital. É bom desafio tomar imagem, não mais como mera ilustração, mas como argumento, à luz de um século da arte do filme. Videoaula, porém, sempre pode existir (como aquelas de Khan Academy), mas são material de pesquisa; nunca foram aprendizagem. Para aprender, há que ensaiar atividades de aprendizagem, que não estão no vídeo, estão na mente do estudante. Cursos precisam comprometer-se com a autoria do cursista, basicamente servem para desenvolver a autoria do cursista, não para engolir conteúdo que é, quase sempre, uma indigestão. 

Papel docente continua de pé, mais que nunca, como orientador (coach) e avaliador, ou “mediador”, fundamental para promover a autoria do cursista. Sua função é puxar pela autonomia do cursista, manejando um tipo de orientação que implica poder, com o tempo, não depender mais dela. De orientação precisamos sempre na vida, mas não podemos depender dela. Ao final, cada qual responde por sua vida. Naturalmente, temos de dominar melhor os ambientes virtuais de aprendizagem, aproveitando, entre outras coisas, a atual febre das lives, que podem ser muito interessantes, desde que não repitam a mera reprodução de conteúdo. Precisamos bem mais de plataformas que aperfeiçoem ambientes de produção própria, individual e coletiva, a exemplo da Wikipédia, para avançarmos em autorias coletivas feitas nesses ambientes, além das individuais. O foco ainda é expositivo – plataformas de conferência ou coisa parecida – mas isto é instrumentação. O foco precisa voltar-se para a produção de conteúdo, que agora pode aproveitar o universo infindo online de conteúdo e produção de conteúdo infindável. 

Como não estamos habituados a exercitar autoria, imaginamos que curso é para obter conteúdo. Cursos de obtenção de conteúdo serão digitizados: robôs farão isso, e bem mais expeditamente que humanos, embora fora da ambiência humana da aprendizagem. Esta precisa ser reconstruída para os tempos atuais, também para incluir as chances digitais, ampliando as oportunidades de autoria, especialmente multimodal. Conteúdos não são relegáveis, pois são cruciais para qualquer exercício profissional. Mas atividades de aprendizagem menos ainda: são cruciais para a formação do cursista. 

 

III. RESISTÊNCIAS

 

Uma coisa é questionar o mau uso das tecnologias digitais, que predomina na praça. Outra é resistir a elas, como se fossem espúrias (ou “neoliberais”, só para pichar). A superioridade do “presencial” é mítica, não só porque os jovens já não se lixam, mas porque é visão curta reduzir presença àquela física. Presenças física e virtual não se substituem; uma não é melhor que a outra; ambas são fundamentais. Abusamos das duas. É preocupação enorme hoje o abuso que jovens fazem do virtual – como diz Turkle: “sozinhos juntos” (2011); precisamos “conversar” (2015) – isolando-se no celular. O botão mais importante do celular hoje é “desligar”! Saber desligar! Mas temos de achar um lugar para o celular na escola, porque ele não vai embora; nós, sim, iremos. Não se pode soltar o celular na escola, porque é um risco desmesurado para crianças principalmente, mas não se pode apenas censurar ou proibir, mormente por ser contraproducente. Numa escola, um grupo de meninas trabalhou o teorema de Pitágoras num vídeo de celular. Foi um sucesso: entenderam o teorema (porque estudaram em grupo, não porque tiveram aula), desenvolveram uma demonstração virtual e até acharam uma utilidade na construção civil. Foi numa escola de Campo Grande (Escola Wladimir Barros da Silva). Em geral, os trecos digitais não são bons para autorias textuais, porque os espaços são mínimos, digitar é um suplício, predominando a obsessão por transmitir/permutar conteúdo. 

Contudo, podemos avançar em pretensões autorais, preferindo plataformas que querem aprendizagem, não mero repasse. Por exemplo, educação científica pode/deve ser iniciada no pré-escolar, porque, como dizia Piaget, a criança é um pequeno cientista, que duvida, pergunta, faz hipóteses, quer saber, aprecia experimentar. A escola prefere calá-lo. Há um site interessante – WISE – Web-based Inquiry Science Environment (Slotta & Linn, 2009) – para crianças fazerem laboratório virtual, instigando-as a trabalharem com método científico, sempre em sentido formativo, crítico autocrítico. Naturalmente, a ciência que cabe na cabeça de uma criança de 4 anos, não é aquela do PhD, mas, no espírito, são a mesma aprendizagem autoral. 

 

CONCLUSÃO

 

Podemos perfeitamente aprender bem sem recursos digitais. Aprendizagem não é necessariamente digital, mas, estando o mundo digital à  nossa disposição, é pernóstico ignorar, além de atrasado. Ainda, não é viável esconder o mundo escolar e universitário das novas tecnologias. Estas vão atravessar tudo, quer gostemos ou não, por mal ou por bem, não como sina determinista, mas como condição natural do desenvolvimento da vida e das tecnologias. Podemos também pretender viver sem escrita, mas vai ser bem difícil e, ao final, inútil. Não se trata, então, de adotar como tecnófilo, ou detestar como tecnófobo, mas de saber apreciar, autoralmente, de modo crítico autocrítico.

 

REFERÊNCIAS

 

DEMO, P. 2018. Atividades de aprendizagem – Sair da mania do ensino para comprometer-se com a aprendizagem do estudante. SED/Gov. MS, Campo Grande – https://drive.google.com/file/d/1FKskDCxNB422PVhrjrDjD48S4cjsb77-/view

DEMO, P. 2020. Aprender com suporte digital – Atividades de aprendizagem digitais – https://drive.google.com/file/d/1eyB_EJS-20fMQ73QIyZxx_8qbvT577aO/view

SLOTTA, J.D. & LINN, M.C. 2009. Wise Science – Web-based inquiry in the classroom. Teachers College Press, N.Y. 

TURKLE, S. 2011. Alone Together – Why we expect more from technology and less from each other. Basic Books, N.Y. 

TURKLE, S. 2015. Reclaiming conversation: The power of talk in a digital age. Penguin, N.Y. 

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